Lagarto comemora 146 anos com história de fé, trabalho e força econômica 

20 de abril de 2026

No dia 20 de abril de 1880, a então vila conhecida como Lagarto dava um passo importante em sua história ao ser elevada à categoria de cidade. A nova condição, possibilitada pelo desenvolvimento econômico e social, em especial por conta da agropecuária forte, assim como suas características culturais próprias, e conquistada há 146 anos, não foi apenas uma conquista administrativa, mas o reconhecimento e celebração da trajetória de um povo que construiu, com o suor do trabalho e da fé, um dos municípios mais importantes de Sergipe, localizado na região Centro-Sul, no coração do estado.  

Com pouco mais de 100 mil habitantes, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Lagarto é um verdadeiro retrato da miscigenação nordestina, marcada por tradição de trabalho duro, força econômica no campo, religiosidade fervorosa e um senso de identidade cultural que resiste ao tempo e segue influenciando novas gerações.

A origem de Lagarto remonta ao século XVI, no processo de conquista de Sergipe pelos portugueses, como explica o prof. Dr. Claudefranklin Monteiro, titular do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (DHI/UFS).

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro

“O território sergipano, que era um território pertencente à Bahia, até a emancipação política de Sergipe, em 1820, foi um território que deu trabalho aos conquistadores, por causa da presença resistente da tribo Tupinambá, que tinha caciques muito conscientes da ideia de pertencer ao seu território e salvaguardar esse território com guerra, se fosse o caso. Lagarto vai surgir dentro desse contexto. De tal sorte que a primeira tentativa de conquista desse povo foi de ordem religiosa. Foram os jesuítas, em 1575, que começaram a penetrar nesse território, e tiveram uma certa facilidade, porque conheciam a língua tupi. A conquista militar, por outro lado, teve início na década de 90 do século XVI, sob a liderança de Cristóvão de Barros, designado pela coroa portuguesa, com um alto custo em vidas indígenas”. 

A campanha militar foi bem sucedida e o território, sesmaria à época, foi doado, em 1596, a Antônio Gonçalves de Santomé, como espólio de guerra atribuído a ele por conta do papel preponderante na guerra. 

“Lagarto começa aí. Não com o nome Lagarto ainda. Mas se a gente pensar numa pré-história de Lagarto, digamos assim, essa é a data oficial do surgimento do nosso lugar. Ele é o fundador. A povoação começou sete anos depois, em 1604, o tempo necessário para angariar pessoas, tomar conhecimento e analisar o que o local podia produzir, se valia a pena investir”, aponta o professor. 

A origem do nome atual da cidade, inclusive, mantém relação com Antônio Santomé, uma vez que o seu pai chamava-se Cristóvão Lagarto, e o brasão da família era composto por três lagartos entrelaçados pela cauda, de acordo com o historiador, que teve acesso à árvore genealógica.

O primeiro nome oficial, no entanto, foi Santo Antônio, até que um surto de varíola tomou o povoado, em 1654, ceifando muitas vidas. A ajuda para lidar com a situação veio através da Ordem dos Carmelitas, vindos de União dos Palmares, em Alagoas, que deram assistência às pessoas doentes. Uma das medidas tomadas foi separar os enfermos dos sadios, então os primeiros começaram a ser tratados no Santo Antônio e os demais foram deslocados para uma região mais distante, onde fica a atual Praça da Piedade. 

“Os carmelitas, devotos de Nossa Senhora da Piedade, fizeram uma promessa: se a população fosse curada daquela moléstia, o lugar passaria a se chamar Nossa Senhora da Piedade. O milagre aconteceu, na concepção deles, a população foi curada e, a partir daquele momento, o lugar passou a ser chamado Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Lagarto, o primeiro nome oficial”, conta Claudefranklin. 

Pouco depois, ou seja,  final do século  XVII, em 1697, o lugar passou a reunir as condições do ponto de vista administrativo para ser considerado uma vila, pois já contava com distrito militar, paróquia, câmara municipal, ouvidoria e comarca. 

No dia 20 de abril de 1880, de acordo com  processo de desenvolvimento pujante, e a partir de uma Lei aprovada na Câmara de Vereadores, a vila de Nossa Senhora da Piedade de Lagarto foi elevada ao status de cidade. 

Agropecuária: a alma da economia lagartense

Desde seus primórdios, a terra fértil e o relevo propício à criação de animais fizeram de Lagarto um dos maiores pólos agropecuários no período do Império. A localização estratégica também contribuiu, uma vez que o gado era tangido de Salvador em direção ao interior e precisava passar pela localidade. 

Se hoje, o município se destaca pela produção de leite, carne bovina e suína, além de lavouras de milho, mandioca e feijão, tanto de agricultura familiar e subsistência quanto agroindústria para exportação, a tradição neste tipo de atividade econômica vem de séculos, começando a tomar forma e proporção atuais na primeira metade do século XX. 

“A origem econômica de Lagarto é a agropecuária. Daí a vaquejada, o Parque de Exposições, o amor pelo gado e pelos cavalos. Faz parte da nossa identidade. Exatamente na passagem do Império para a República, Lagarto passou por um boom econômico, após reformas feitas pelo Monsenhor Daltro, uma figura importante que buscou modernizar o lugar. Essas medidas, como uma espécie de reforma agrária, impulsionaram a produtividade, aumentaram a renda e criaram uma classe média, para além da elite dona das grandes propriedades, o que foi fundamental para a urbanização”, destaca o historiador. 

Um legado de resistência e esperança

Todo o processo de desenvolvimento que culminou na elevação aos status de cidade e se perpetua até os dias de hoje, só foi possível pelo esforço e suor de uma população diversificada, de etnias e saberes diferentes, unidos ao longo dos séculos por amor a esse chão compartilhado. 

Celebrar 146 anos como cidade é também relembrar os passos de quem construiu sua história com coragem. Lagarto é, acima de tudo, a expressão da força do interior nordestino: resiliente diante das dificuldades, generoso ao compartilhar suas tradições e sempre disposto a arregaçar as mangas e construir um futuro mais próspero. (PML)

Centro de Lagarto